8 de set. de 2008

Seção 2

SEÇÃO II

JUSTIÇA TRANSFORMADORA:
COMPROMISSO RADICAL DE SUPERAR O RACISMO

Barras laterais:

Referências bíblicas:
Gênesis 16, 7-15
João 4, 1-30
Atos 10
1 Coríntios 12, 12-31

Justiça transformadora é uma ferramenta para superar o racismo bem como um fruto dessa superação. Ela lida com o passado e com o presente. Seu objetivo é conseguir justiça, restauração, reconciliação e o restabelecimento das relações entre as pessoas. Neste contexto também entram a restituição e reparação. Ela afirma a dignidade, o respeito próprio e o valor das pessoas. Ela resgata a justiça, paz e integridade da criação em conjunto.1

Barras laterais: página 19 do texto em Inglês
Quais são as características racistas da sua igreja ou congregação?

Como poderá um modo de vida cristão afirmar formas de identidade que não excluam, mas sejam abertas para a comunhão com outros?

Quais são as marcas de uma missão que reforça identidades e constrói uma comunidade de justiça racial e étnica?

CMI - Estudo sobre Evangelho e Cultura

Sugestão
Os itens desta seção podem ser tratados ao longo de um certo tempo. Por exemplo, cada encontro da comunidade poderia abordar um ou mais itens, conforme o avanço do diálogo;
A responsabilidade pela pesquisa necessária poderia ser compartilhada entre vários membros do grupo;
Os resultados desses diálogos são muito importantes. Ao se repartir a responsabilidade de fazer anotações detalhadas, será possível compartilhar essa informação com o CMI, com igrejas e parceiros ecumênicos.

Explore em conjunto com a comunidade formas adequadas de encaminhar uma abordagem centrada em sobreviventes do racismo que incluam o diálogo necessário e negociação com todas as partes envolvidas.

Barras laterais:
Referência bíblica:
1 Coríntios 12, 12-31
A compreensão e respeito mútuos são cruciais para se edificar comunidades inclusivas, particularmente em contextos onde exista diversidade de religiões.

Barras laterais:

No incidente do homem rico, em Marcos 10,17 ss, ouvimos a história do que precisamos fazer para participarmos do modo de viver que, de acordo com a proclamação de Jesus, é a verdade libertadora para o mundo (" Ide, vendei tudo...)"
Em Atos 2,43 ss somos lembrados de que a igreja teve seu começo num ato de compartilhar recursos, ato este que exigia que a pessoa abrisse mão de suas posses em prol do bem de todos, conforme a necessidade.

O bispo Mvume Dandala, da Igreja Metodista na África do Sul, comentando sobre esta questão, diz que "a igreja desempenhou um papel importantíssimo na guarda dos nossos arquivos. Deve haver muita coisa que ainda não veio à tona e que precisa ser desenterrada. Talvez não seja desenterrado pelo próprio Conselho Mundial de Igrejas, mas pode ser desenterrado pelo movimento ecumênico mediante a criação de uma situação que tornaria imperativo que as igrejas devolvessem à África os arquivos que a ela pertencem ." 1

Barras laterais:

A QUESTÃO COLOCADA PELO BISPO DANDALA CONTINUA NO AR: COMO PODERÃO O MOVIMENTO ECUMÊNICO E AS IGREJAS-MEMBRO DO CMI RESPONDER A ESTE DESAFIO?

Muitas obras de arte foram retiradas e roubadas da África, Ásia e América Latina e se encontram em museus e arquivos da Europa e da América do Norte. Devolvê-las aos seus lugares de origem faria parte de um pacote de reparações e ajudaria a restaurar a dignidade e auto-estima desses povos.


A mesa-redonda da Conferência Cristã da Ásia, organizada pelo CMI sobre o tema "Raça e Opressão na Ásia: Esperança para Nossos Povos" (1996) declara: "Em muitos países asiáticos os modelos de desenvolvimento predominantes estão privando os povos indígenas e setores rurais das suas terras e recursos. A exploração da mão-de-obra, particularmente de mulheres e de bóias-frias, é intensa, ao mesmo tempo em que a perpetuação das culturas dominantes, geralmente propaladas como "culturas nacionais", exclui e destrói outras culturas. A divisão entre ricos e pobres, entre aqueles que controlam os recursos e os que não, entre grupos dominantes e dominados, tem-se exacerbado. Os participantes da mesa-redonda concluíram que "a globalização em sua forma atual é uma expressão de racismo".

A justiça transformadora tem implicações para o contexto mundial, particularmente para a sua (des)ordem econômica, e para uma visão do mundo como comunidade global. A atual dinâmica de globalização, com exclusão, marginalização e destruição do meio ambiente, nos mostra claramente que não vivemos numa comunidade global. Infelizmente isto atinge toda a criação bem como as comunidades a nível local, cujos valores e formas de vida também estão ameaçados.




O CICLO DA TRANSFORMAÇÃO

COMUNIDADES TRANSFORMADAS
Focalizando a Justiça
Buscando e Falando a Verdade em Amor
Abordagem Centrada nas Vítimas e em Sobreviventes
Vida, Criação e Meio Ambiente
Comunidade Inclusiva
Reparação e Restituição
Cura e Reconciliação
Revisar o Desequilíbrio de Relações e de Poder na Igreja e na Sociedade
Estratégias para Confrontar e Superar o Racismo
Os Frutos da Justiça Racial e Étnica
O Pecado do Racismo


OBJETIVO:
1. ENCORAJAR AS IGREJAS A SE ENGAJAREM E SE TORNAREM COMUNIDADES DE JUSTIÇA TRANSFORMADORA,
2. DELINEAR PASSOS PARA CONSTRUIR TAIS COMUNIDADES,
3. PROVER ESTRATÉGIAS PARA A REVISÃO DA HISTÓRIA E PRÁTICA DA IGREJA.


A Conferência Mundial das Nações Unidas contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata (Durban, África Do Sul, 2001) foi um fórum para expressar muitos problemas contemporâneos, inclusive uma crescente preocupação em trazer à tona a verdade, reconhecer erros do passado e do presente, desafiar a impunidade, conclamando a uma vida de relacionamentos restaurados e processos de reconciliação.
As igrejas também têm tido consciência desses desafios, os quais trazem repercussões para elas. É dentro deste contexto e à luz das experiências vividas pelas igrejas que a justiça transformadora emanou do conceito de justiça restauradora.
A justiça restauradora tem a ver com "restaurar vítimas, com um sistema mais centrado na vítima, bem como recuperar perpetradores e restaurar a comunidade (...)".9 Essa expressão está relacionada com conceitos e abordagens do crime e do sistema judiciário criminal, sendo particularmente uma reação ao conceito predominante de "justiça retributiva".
A justiça transformadora afirma os valores do movimento de justiça restauradora. Entretanto no contexto da justiça racial e étnica, as igrejas, os governos, a sociedade civil, vítimas ou perpetradores não podem restaurar, reafirmar, restabelecer, trazer de volta, devolver aquilo que se perdeu.
Séculos de racismo, discriminação racial e sexismo não podem ser apagados sem mais nem menos, nem historicamente, nem coletivamente, nem individualmente. A vida e a cultura dos povos, suas línguas, seus estilos de vida, liturgias e espiritualidade não podem mais voltar a ser como antigamente .
As igrejas acreditam que todos os seres humanos são filhos e filhas de Deus e que o mundo é uma comunidade multicultural, a qual é um presente de Deus tanto quanto uma realidade ainda por ser alcançada.
Ao afirmarmos a realidade transcendente da igreja, reconhecemos que a igreja ainda não é, em sua manifestação empírica, plenamente o que ela é em Deus. Neste sentido podemos dizer que a igreja enquanto instituição histórica está, ela própria, passando por um processo de "formação moral" guiado por Deus, processo este que continuará até a alvorada do Reino pleno de Deus. Assim sendo, as tarefas de formação e discernimento espirituais e morais sempre farão parte da vida e missão da igreja. Isto significa dizer mais uma vez: nas próprias lutas da igreja pela justiça, paz e integridade da criação está em jogo o próprio ser igreja.10
A igreja enquanto instituição histórica está caminhando em direção à plenitude do ser comunidade dos filhos e filhas de Deus. A visão que nos impulsiona para frente, aquela de uma igreja e de um mundo livres do racismo, aquela de uma comunidade justa e inclusiva, é uma visão que nos orienta para sermos filhos, igrejas, povo e criação de Deus plenamente transformados. "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito." Romanos 12.2, A Bíblia de Jerusalém. Esta é uma mudança de paradigma que permitirá transformar estruturas, culturas e a definição de valores.

DIRECIONAMENTOS PARA A CONSTRUÇÃO DE COMUNIDADES DE JUSTIÇA TRANSFORMADORA
FOCALIZANDOA JUSTIÇA11
Deuteronômio 16,20
Busca somente a justiça, para que vivas e possuas a terra que Iahweh, teu Deus, te dará.
Que significa justiça para pessoas nas igrejas e comunidades que sofreram a injustiça do racismo? Como acham elas que a justiça poderia ser alcançada?
Essas questões são um desafio para as igrejas e comunidades. Justiça Transformadora é a visão tanto quanto o conteúdo de justiça que orienta a igreja.


BUSCAR E FALAR A VERDADE EM AMOR
Efésios 4, 14-15
Assim, não seremos mais crianças, joguetes das ondas, agitados por todo vento de doutrina, presos pela artimanha dos homens e da sua astúcia que nos induz ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresceremos em tudo em direção àquele que é a Cabeça, Cristo.
A revisão da história das relações das igrejas com os povos que sofreram o impacto da sua missão deveria proporcionar o necessário conhecimento do que aconteceu no passado e fornecer os elementos necessários para ajudar a definir a ação futura da comunidade.
Em termos dos objetivos desta Cartilha, a concepção de missão é a seguinte:
A missão tem em seu bojo uma compreensão holística: a proclamação e o compartilhamento da boa nova do evangelho pela palavra (...), ação (...), oração e culto (...), bem como pelo testemunho diário da vida cristã (...); pelo ensinamento enquanto edificação e fortalecimento das pessoas em sua relação com Deus e entre si; e pela cura enquanto integralidade e reconciliação para (...) a comunhão com Deus, comunhão com as pessoas e comunhão com a criação como um todo.12
As igrejas acreditam que é a verdade que as liberta. Dizer a verdade individualmente, coletivamente e institucionalmente sobre a história e missão da igreja é parte integrante da noção de justiça.
A verdade,
• é a base para se saber o que realmente aconteceu na história das igrejas, em sua missão no passado e no presente,
• torna possível denominar atos lesivos e desencadear formas adequadas de reparação,
• implica uma disposição para questionar até mesmo as mais profundas convicções,
• ajuda a entender as suposições por detrás de, e as relações entre evangelho e culturas,
• capacita para admitir que se está errado.13
Eis alguns exemplos de como duas igrejas conseguiram usar o "dizer a verdade" como parte da justiça transformadora:
Ao revisar sua história e missão, a Igreja Unida do Canadá concluiu que o trabalho missionário das igrejas no Canadá, como em outras partes do mundo, levou mais do que o evangelho. Receber o evangelho significava adotar a cultura européia ocidental. Nem os povos indígenas nem os missionários evangélicos foram capazes de separar o evangelho da cultura européia ocidental. Os povos indígenas experimentaram sua espiritualidade como parte de todo um estilo de vida. O cristianismo não se tornou indígena. Isto somente poderia ter sucedido se o evangelho tivesse sido integrado na cultura.
À medida em que o poder passou para as mãos da sociedade branca e do governo federal, os povos aborígines tiveram menos oportunidade para assimilar o cristianismo em termos que fossem significativos para eles. A missão das igrejas foi levada a cabo com a concepção de que "cristianizar" e "civilizar" eram sinônimos.14 Um relatório de um Grupo Tarefa da Igreja Unida do Canadá sobre Internatos Escolares, de 1991, concluiu que "não é exagero dizer que a igreja exigiu que os povos indígenas se arrependessem de ser povos indígenas caso quisessem seguir o caminho cristão." 15 A suposição básica sobre a superioridade da cultura européia (e norte-americana) implicava total desrespeito pelos povos indígenas e suas culturas milenares.
Diversas políticas foram utilizadas para implementar a doutrina da assimilação. Aquela que haveria de causar impacto direto sobre as igrejas foi a criação de internatos escolares para crianças como instrumentos de assimilação. As escolas e seus ensinamentos se tornaram ferramentas para integrar primeiros povos da nação na sociedade, ferramentas para destruir culturas indígenas.
Na Austrália, a história da relação entre a Igreja Unida e o povo aborígine foi semelhante.
Ao colocar lares à disposição das crianças, os missionários acreditavam estar fazendo o bem. Infelizmente houve casos de abuso. Para muitas crianças o resultado foi a total alienação das suas culturas e da sua identidade. Não há registro de que as igrejas tenham condenado um sistema que traumatizava pais e filhos, sem que houvesse uma forma de tratar sua tristeza e indignação. Este foi um sistema de genocídio cultural, racista, desumano e injusto em sua prática, que desintegrou famílias e comunidades e destruiu muitos indivíduos.16
Considerações a serem levadas em conta numa revisão da história das igrejas e das questões de justiça racial e étnica:
• Encoraja-se as igrejas a começarem onde puderem e associarem-se a outras em desafios que talvez pareçam difíceis de abordar numa perspectiva local.
• Pesquise documentos da igreja, biblioteca, relatos e eventos históricos que lancem uma luz sobre as relações da sua igreja local com vítimas e sobreviventes do racismo.
• De atenção especial a relatos orais e anotados, ligados ao trabalho de missão e evangelização em sua igreja.
• Examine as tensões raciais e étnicas e divisões teológicas e outras que contribuam para o rompimento de relações, produzindo exclusão e marginalização.
• Reflita sobre as incoerências entre um evangelho inclusivo e as divisões raciais e defina estratégias e ações para eliminá-las.
• Analise as razões pelas quais existem lacunas e omissões sobre a história da igreja na relação com povos indígenas-aborígines, africanos e afro-descendentes, Dalits, minorias étnicas e outros. Poderiam essas lacunas ser também um sinal de discriminação? Até que ponto a nossa percepção da história continua refletindo e perpetuando a discriminação?
• Reflita sobre a teologia, o pensamento teológico, publicações, ensinamentos e pregação da sua própria igreja e tente entender o papel que tiveram e continuam tendo na promoção do racismo devido a pressuposições racistas.
• Faça uma revisão e discuta a história da igreja, materiais teológicos e do culto juntamente com líderes eclesiais responsáveis pelas diferentes áreas da vida da igreja. Isto contribuirá para a promoção da justiça racial e étnica e para a superação do racismo na vida e nos processos decisórios da igreja.
• Teólogos, acadêmicos e escolas de teologia são chamados a verificar suas próprias tradições no ensino de teologia e da história. Deveriam identificar suposições e interpretações racistas e confessar a cumplicidade de certas teologias cristãs na promoção do pensamento e comportamento racista e intolerante.17
• Examine outras teologias, como a teologia feminista, teologia da libertação e teologia Minjung (coreana), como elas surgiram das bases e contribuíram para o enfrentamento de injustiças e desigualdades nas comunidades e para melhorar relações humanas e relações com Deus.
• Professores e estudantes de teologia deveriam ser conscientizados sobre as suposições culturais, etnocêntricas e lingüísticas do passado e do presente, que continuam reforçando percepções racistas nas teologias da igreja.
• Sob a orientação de um engajamento ecumênico, dever-se-ia tentar desenvolver uma abordagem multicultural, multirracial e multiétnica de ser igreja.
• O que a missão das igrejas significou no passado e o que ela deveria significar hoje para a natureza da igreja na sua relação com a meta de superar o racismo?

ABORDAGEM CENTRADA NAS VÍTIMAS E NOS SOBREVIVENTES
A abordagem centrada nos sobreviventes é intrínseca à nossa noção de justiça. Vítimas e sobreviventes bem como seus descendentes deveriam ser encorajados a identificar e ajudar a encontrar respostas adequadas das comunidades para uma justiça transformadora. Numa comunidade de justiça transformadora aqueles que sofrem a injustiça é que têm a credibilidade e legitimidade para dizer quando é que se alcançou a justiça racial/étnica e de gênero. As comunidades de justiça transformadora conseguirão colher sua própria safra de justiça.
Esta abordagem é de particular importância por causa da desvantagem histórica à qual continuam sujeitas as vítimas e os sobreviventes. Há diferentes níveis que deveriam ser levados em conta: o privilégio branco é uma realidade. De muitas maneiras e na maioria dos contextos ele proporciona acesso a serviços, educação, poder econômico e político. Trata-se de um privilégio dado de nascença. A abordagem centrada no/a sobrevivente procura reparar esse desequilíbrio. Exemplos disso são estratégias de ação afirmativa implementadas em muitos países. Elas são o reconhecimento de que as pessoas que sobreviveram a práticas racistas históricas sofreram desvantagem. Trata-se de estratégias que nos ajudam a obter justiça.
Outro nível que precisa ser levado em conta são os efeitos nocivos do racismo e da discriminação racial sobre a vida emocional, espiritual e psicológica das pessoas. Isto também faz parte do necessário processo de cura. O papel das igrejas, dos seus membros e das comunidades como um todo está em oferecer um ambiente seguro que permita desencadear o processo de cura.

VIDA, CRIAÇÃO E MEIO AMBIENTE
Miquéias 6, 2. 8
Ouvi, montanhas, o processo de Iaweh, prestai ouvidos, fundamentos da terra, porque Iaweh está em processo com o seu povo, e contra Israel ele pleiteia. (...) Foi-te anunciado, ó homem, o que é bom, e o que Iaweh exige de ti: nada mais do que praticar o direito, gostar do amor e caminhar humildemente com o teu Deus!
Os povos indígenas insistem constantemente que a humanidade faz parte da criação e que a terra é sagrada. Eles acreditam que suas comunidades e culturas estão intrinsecamente ligadas à terra e que a terra é vida. Suas identidades, culturas, línguas, filosofia de vida e espiritualidade sustentam e expressam uma relação equilibrada com toda a criação. Se a sua terra lhes é tirada ou destruída, a própria identidade das suas comunidades fica ameaçada.
Africanos e afro-descendentes também acreditam que a comunidade humana e a comunidade terrena maior fazem parte uma da outra. A vida abarca culturas, identidades, tradições, costumes, valores, espiritualidade e cosmovisões como espaço comum, no qual as comunidades de seres humanos nascem e são sustentadas. Isto se expressa muito bem num conceito africano, ubuntu, no qual a qualidade humana e ser-com-outros são totalmente inter-relacionados.
Essa concepção e visão relacional da vida, a qual está em total sintonia com a missão holística da igreja em resposta ao chamado de Deus por justiça e cuidado da vida, tem por conseqüência uma profunda crítica ao paradigma de economia e desenvolvimento em vigor. Desenvolvimento na concepção das corporações multinacionais e instituições financeiras internacionais baseia-se em tecnologias e no crescimento rentável das atividades econômicas. Na prática, ele corrói o tecido social das sociedades e o sustento das pessoas, desintegrando culturas e destruindo ecossistemas. A globalização econômica agravou essa degradação social e ambiental.

Além dos fatores sócio-econômicos claramente visíveis, raça e gênero agravam ainda mais o impacto negativo sobre diferentes grupos de pessoas. Estudos feitos por igrejas nos EUA e também em outros países identificaram padrões racistas na distribuição dos efeitos econômicos e ambientais negativos. Substâncias tóxicas, poluentes e depósitos de lixo perigoso, por exemplo, tendem a ser colocados em comunidades de Negros, Indígenas ou outros, ou próximo às mesmas.18
O racismo ambiental é uma realidade que precisa ser exposta pelas igrejas. A missão da igreja tem a ver com a pessoa integral em comunidade e também com a totalidade da vida. A missão da igreja no poder do Espírito está em chamar as pessoas para a comunhão com Deus, de umas com as outras e com a criação.

COMUNIDADE INCLUSIVA
Atos 2, 44-45
Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um.
As igrejas deveriam assumir a responsabilidade de reconhecer que o racismo viola a integridade das pessoas e da criação bem como as relações entre as pessoas. Outros elementos dessa responsabilidade são confissão, pedidos de desculpas, pedir perdão e perdoar. Estes não deveriam ser entendidos apenas como ato coletivo da igreja inteira, mas também como atos individuais. A transformação que afeta comunidades inteiras é uma transformação que também causa impacto sobre indivíduos.
Foco sobre a inclusão: as decisões sobre como transformar a realidade das igrejas e das comunidades deveriam ser tomadas pela comunidade inteira. Uma caminhada inclusiva e participativa exige que uma comunidade engajada encontre maneiras de "trazer à mesa" ou trazer "de volta à mesa" aquelas pessoas que resistem às mudanças e à participação. A auto-exclusão ou qualquer outro tipo de exclusão deveriam ser superadas para o bem de toda comunidade .19
As sociedades e igrejas no mundo todo estão sendo obrigadas a enfrentar o desafio cada vez maior da movimentação dos povos. A migração internacional atingiu uma escala sem precedentes porque, por diversas razões, milhões de pessoas são forçadas a deixar seus domicílios e migrar para o estrangeiro para sobreviver.
Igrejas e comunidades multirraciais, multiétnicas e multiculturais estão se tornando uma realidade cada vez mais freqüente. As igrejas têm a oportunidade de serem receptivas e inclusivas, criando oportunidade para a expressão autêntica das identidades das pessoas. O compromisso com a inclusão exige trabalho diligente contra a xenofobia, o racismo e todas as outras formas de discriminação que desintegrem a vida comunitária. "Identidade cultural e étnica são dádivas de Deus, mas não devem ser usadas para rejeitar e oprimir outras identidades."20 Ser receptivos para com as pessoas também deveria significar a oferta de espaço a diversas expressões litúrgicas, fomentando a vida dessas comunidades pela riqueza da experiência do evangelho nas diversas culturas.



REPARAÇÃO E RESTITUIÇÃO: OBRIGAÇÃO MORAL?
Lucas 19,8
Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: "Senhor , eis que eu dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, restituo-lhe o quádruplo."
No passado recente o movimento dos povos em direção ao dizer a verdade e ao reconhecimento de erros do passado e na atualidade tem desafiado o silêncio e a impunidade. Em muitas partes do mundo os povos que têm sofrido racismo e discriminação racial começaram a se manifestar sobre as injustiças que sofreram. O colonialismo, que deu origem ao racismo, não terminou, e as realidades das vítimas e dos sobreviventes hoje estão diretamente relacionadas com o mesmo, assim como a continuação do privilégio branco. A verdade sobre essas realidades agora é de conhecimento geral.
Como resultado disto, igrejas em diferentes partes do mundo também estão enfrentando questões de reparação e compensação. Muitas vezes a iniciativa para pagar reparações não tem vindo de dentro das igrejas, mas da sociedade civil e do sistema judiciário, que têm determinado que as igrejas devem pagar reparações. As igrejas no Canadá precisam pagar reparações às famílias de crianças indígenas que sofreram abuso físico e sexual. Há relatos de casos de devolução de terra que pertencia aos indígenas, aborígines e africanos, as quais haviam acabado nas mãos da igreja.
Nesses casos se reivindicou a compensação direta da injustiça e do dano causado. Eles estão ligados aos extremos desequilíbrios econômicos e sociais oriundos do racismo e da discriminação racial enraizada no colonialismo. A reparação e restituição como obrigações morais são parte do processo de justiça transformadora, que não leva em consideração as soluções fáceis para padrões históricos de racismo profundamente arraigados, porque muitas vezes essas soluções fáceis não conseguem proporcionar mais do que uma "graça barata" emocional para aliviar as consciências de povos e igrejas. A justiça transformadora é um compromisso muito caro para com a justiça. Ela é parte de um processo de restituição às vítimas e sobreviventes por parte dos autores, o qual deveria ser assumido pela igreja institucional.

Algumas outras formas de REPARAÇÃO
Existem diferentes formas de reparação, entretanto, e é necessário fazer uma distinção entre elas. Na maioria dos casos, a reparação é identificada com reparação econômica. Não obstante, o conceito de reparação é mais amplo do que isto. Inclui, por exemplo, reparação simbólica: os parentes de pessoas desaparecidas na América Latina reivindicaram um lugar onde pessoas desaparecidas são lembradas (um monumento, uma rua, uma praça) em vez de restituição econômica. Os parentes dos desaparecidos entenderam que desta forma se mostrava que essas pessoas não eram criminosas, mas vítimas do terrorismo de estado. A reparação simbólica foi um reconhecimento público do que havia acontecido. Seja qual for a sua forma, a reparação também implica em cura e reconciliação.21
De modo semelhante, outra questão ainda muito pouco examinada é a perda de idiomas, sistemas familiares, cultura e espiritualidade. Os tribunais atualmente não consideram que essas perdas sejam razão para alguma ação, de modo que nem o governo nem a igreja têm qualquer obrigação legal de pagar reparações por tais perdas. (Há alguns casos nos tribunais, só que provavelmente levarão anos até chegar à Suprema Corte do Canadá, até que se tenha alguma decisão definitiva.) Através dos tribunais alguns acordos foram feitos com pessoas que sofreram abuso sexual nos internatos escolares do Canadá. Entrementes, porém, as igrejas e nações estão desafiadas a não esperar até que os tribunais tomem uma decisão para enfrentar toda a questão das reparações. O Rev. Brian Thorpe, conselheiro sênior da Igreja Unida do Canadá na questão dos internatos escolares, acredita que esta será uma importante área na qual a comunidade eclesial mais ampla poderia ser de grande ajuda por meio do Conselho Mundial de Igrejas.22

CURA E RECONCILIAÇÃO
Mateus 5, 23-24
Se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta.
É importante entender que cura e reconciliação não são questões apenas abordadas nos parágrafos a seguir. Na verdade todos os direcionamentos aqui apresentados como parte do processo de justiça transformadora integram o processo de conquista da cura e da reconciliação. Onde o racismo está ou esteve presente, vítimas e sobreviventes, perpetradores e comunidade eclesial sofreram danos, sendo necessários cura e reconciliação.
Com base na experiência daqueles que estão passando por processos de cura do pecado do racismo, a lição apreendida é que raiva, dor e sofrimento são inevitáveis, principalmente quando as comunidades encaram a verdade. As atividades relacionadas a conscientização racial e outros programas contra o racismo revelam que em muitos casos cristãos brancos, quando tomam consciência do racismo e da injustiça, por vezes se sentem consumidos pela culpa e pela depressão. Esta atitude não é sadia em termos psicológicos, teológicos e espirituais. Eles deveriam tentar achar maneiras de passar por esse reconhecimento, engajando-se num processo autêntico que vai da culpa para a confissão, perdão, contrição e reconciliação.23 A verdade, entretanto, faz parte da cura tanto para as vítimas quanto para os perpetradores. A verdade cura os indivíduos bem como as comunidades e sua vida institucional.
Encarar o racismo internalizado é uma das preocupações no processo de cura.
O racismo internalizado é um padrão de tribulação no qual as vítimas do racismo (consciente ou inconscientemente) aceitam os estereótipos negativos sobre si mesmos, perpetuados pela cultura dominante, na mídia, no folclore, nos relatos históricos etc. Psicólogos e outros estudiosos do comportamento humano identificaram padrões semelhantes em outros grupos oprimidos, como por exemplo em mulheres e em grupos em situação de desvantagem econômica.24
O racismo internalizado é um fenômeno que ocorre quando pessoas que sofrem discriminação racial, étnica ou de outro tipo são continuamente bombardeadas com informação racial e étnica discriminatória (verbal, visual, escrita etc.) e sofrem maus-tratos sistematicamente ao longo de certo tempo. As pessoas que são alvos desse tipo de opressão internalizam a discriminação e o comportamento ofensivo, voltando-se sobre si próprias, sobre os membros da sua família e outras pessoas do seu grupo e de sua igreja. Os grupos dominantes aproveitam a forma internalizada do racismo para consolidar ainda mais seu poder, maltratando as pessoas discriminadas.
As comunidades eclesiais em caminhada rumo à transformação são confrontadas com estas e muitas outras feridas que precisam de cura e de reconciliação. Elas têm condições favoráveis para tal e experiência em oferecer cuidado pastoral. A salvação em Cristo é para a pessoa inteira. Cura e reconciliação fazem parte da missão da igreja.

DESEQUILÍBRIO DE RELAÇÕES E PODER
NA IGREJA
A justiça transformadora trata de corrigir relações. As Igrejas são comunidades relacionadas com Deus, com Jesus Cristo e com o Espírito Santo. Essas relações são também com todo o povo de Deus e com aquelas pessoas que se reúnem nas mesmas congregações.
Em grande parte, a injustiça existe nas comunidades eclesiais por causa das desigualdades na distribuição do poder e no acesso ao mesmo. Poder neste contexto significa não só o poder de exercer controle sobre decisões que afetam a nós mesmos, mas também a capacidade de tomar decisões que afetem outros. O uso e a distribuição dos recursos também desempenham um papel no equilíbrio de poder.
Aqueles que usufruem das estruturas sociais e eclesiais existentes aproveitam mais do que seu justo quinhão de poder e também de privilégios. Essa desigualdade de poder lhes permite exercer um controle sobre os menos poderosos. A luta por justiça e por uma igreja que seja uma comunidade inclusiva exige uma reordenação dessas relações de poder. O poder precisa ser distribuído eqüitativamente nas sociedades e na igreja.
É igualmente importante criar relações equilibradas de poder em encontros interculturais entre igrejas em sua missão e entre povos. Dinheiro, posses materiais, história etc. têm impacto direto sobre os relacionamentos. Ao entrar em relações na missão, as igrejas têm a responsabilidade de evitar o mau uso do poder, buscando estabelecer relações justas.25

NA SOCIEDADE
Na luta pela justiça racial e étnica hoje em dia é preciso também examinar as relações fundamentais de poder e dominação que operam em escala mundial. Há quem questione se a dominação econômica, militar e de outros tipos (como o patriarcado) realmente tem correlação com raça, etnia ou casta. Mas o fato é que as maiores concentrações de poder econômico, político e militar se encontram principalmente nos países industrializados do norte, liderados por brancos. Fato é também que quem mais sofre com essa situação são os povos negros do sul ou os negros que residem no norte.
Os formadores e beneficiários desses sistemas econômicos são brancos, em sua maioria. As pessoas que sofrem e recebem menos benefícios desses sistemas são, em sua maioria, pessoas de cor, como povos indígenas, afro-descendentes, Dalits e minorias étnicas e outros. O racismo global e as estruturas econômicas injustas do mundo estão totalmente interligadas. Podemos dizer, portanto, que a supremacia branca continua prevalecendo. Supremacia branca se refere ao mito de que os brancos são superiores aos outros. Este mito procura legitimar o poder e o privilégio dos brancos sobre qualquer outro grupo racial e étnico. A supremacia branca e o mito da superioridade da cultura ocidental caminham de mãos dadas como parte da mesma ideologia.
O problema da supremacia não se restringe apenas aos brancos. Há sociedades onde o problema maior não é o de cor, mas de hierarquia de castas e de superioridade étnica. Exemplos escancarados de cada um são o sistema de castas na Índia e o etnocentrismo da antiga Iugoslávia e de Ruanda, por exemplo. Nesses contextos, a casta ou grupo étnico "superior" desempenha o mesmo papel que os brancos na supremacia branca.
A dimensão racista da ordem econômica atual raramente é reconhecida. Há considerável resistência em se admitir que o racismo e a discriminação racial sejam barreiras para o desenvolvimento nos países pobres e para a igualdade de oportunidades econômicas nos países ricos, e que a globalização econômica tenha impacto negativo que inclui desigualdades raciais e étnicas e a exclusão de amplos setores da população dos benefícios da economia global.
No passado, a colonização e a escravatura demonstravam a natureza terrível de um período anterior da globalização econômica impelida pelo interesse próprio e igualmente destituída de compaixão. Hoje em dia a globalização discrimina particularmente antigas colônias européias e países na África, na Ásia, no Caribe, na América Latina e no Pacífico. Atualmente esses países continuam sendo controlados por potências européias e por nações industrializadas predominantemente brancas e seus sistemas capitalistas.
A violência por motivação racial é outro aspecto do poder. Ela também é sintoma da impotência que pode estar presente em todas as formas de organização social. Ela se manifesta no uso legítimo do poder da polícia ou do Estado bem como em seu uso ilegítimo, quando as pessoas sofrem maus-tratos por sua origem racial e étnica.

Outra forma de violência, entretanto, é a violência econômica.
Para a maioria dos negros, asiáticos e pobres da Grã-Bretanha, por exemplo, a violência não é uma questão de escolha; ao invés, ela é um sintoma de não haver escolhas. Seu clamor é: "Não consigo pôr meu filho na escola." "Eu moro num gueto." "Meus pais estão velhos e pobres." Como podemos parar com essa violência? As igrejas podem contribuir atendendo às necessidades dos destituídos e participando do processo que repudia o abuso que reside em negar às pessoas os meios de subsistência, a liberdade de movimento e direitos humanos.26