Hoje, tanto quanto no passado, as igrejas são chamadas a fazer avançar a causa da justiça no tocante a questões raciais e étnicas. É uma conclamação para que as igrejas continuem a defendê-las, demonstrando sua solidariedade de maneira concreta. Mas é também um chamado para que haja um comprometimento maior por parte das igrejas no sentido de enfrentarem seu próprio racismo, não só o racismo em outros lugares. Trata-se de um chamado que leva as igrejas a encararem, no presente, seu próprio passado em relação à sua própria gente: povos indígenas, afro-descendentes, minorias étnicas, Dalits[1] e outros. O racismo e a discriminação racial são características que impregnam a maioria das sociedades.
Os caminhos que levam à justiça racial são numerosos e diversos. A questão é muito complexa. Quanto mais terreno se ganha, mais há para fazer. A caminhada rumo à justiça racial é coletiva, comunitária e inclusiva e precisa estar embasada e centrada nas pessoas, na sua participação e nas suas relações. Para ser eficaz, a caminhada deve atingir nossa alma e espírito, nossos corações e nossas mentes.
Ao preparar esta Cartilha, fomos inspirados por experiências e processos que estão acontecendo no mundo todo. Nossa esperança é que esta Cartilha possibilite que essas experiências sejam compartilhadas num âmbito maior, vindo a engajar e envolver muitas outras igrejas para que encontrem seu próprio caminho rumo à justiça racial. Cada igreja precisa determinar seu próprio nível de compreensão e trabalho sobre o racismo, e decidir como lidar com as numerosas questões levantadas na Cartilha. As igrejas são encorajadas a desenvolver seu próprio plano de ação nas questões aqui apresentadas.
Esta Cartilha bebeu das fontes de sabedoria cristalizadas em materiais disponibilizados por algumas igrejas. Ela pretende ser um instrumento de ajuda para que as igrejas e suas comunidades se envolvam e respondam ao desafio. Ela foi elaborada para ajudar as comunidades a lidarem com o racismo a partir de suas próprias experiências tanto como vítimas e sobreviventes e/ou como perpetradores.
Esta Cartilha destaca muitas questões de justiça racial. Ela não pretende cobrir todas as áreas. Os membros das comunidades poderão explorar tanto as questões aqui apresentadas quanto outras mais diretamente ligadas ao seu próprio contexto. Por esta razão, esta Cartilha não visa certas comunidades em particular. Ela abre caminhos para as comunidades abordarem as questões relevantes para elas: as relações com povos indígenas, africanos e afro-descendentes, com pessoas discriminadas por causa da sua origem étnica e nacionalidade, Dalits e outros.
É especialmente importante reconhecer que mulheres, jovens e crianças muitas vezes estão sujeitas a vários estágios de discriminação – discriminação em dose dupla e tripla. As igrejas e comunidades locais têm a responsabilidade de tratar essa questão ao buscar a cura, reconciliação e justiça.
O que está em jogo?
As denominações e o movimento ecumênico publicaram numerosas declarações contra o racismo. Mesmo assim o racismo continua profundamente enraizado.
Fidelidade é fidelidade para com Deus e para com o evangelho de Jesus Cristo. Essa fidelidade também exige transformação. Tal transformação deve levar as igrejas a encararem a verdade sobre os erros que elas mesmas cometeram no passado contra povos que sofreram discriminação racial e étnica.
A transformação necessária precisa ir mais fundo, tocar os corações, as mentes e o espírito das pessoas com cura, integridade, justiça, assim transformando-as para se tornarem comunidades eclesiais que vivam plenamente a diversidade das suas etnias e culturas como reflexo manifesto da criação de Deus. Em alguns contextos esse engajamento com a superação da divisão racial e/ou étnica das igrejas pode custar caro.1
Tal comprometimento não pode ser encarado como uma espécie de atividade rotineira para a missão das igrejas. Precisamos reconhecer que as ações de indivíduos, igrejas e sociedades precisam ser transformadas pelo poder de Deus.
As igrejas mais uma vez se confrontam com a necessidade de passar por uma metanóia (arrependimento), para realmente mudar de direção e mostrar sua disposição para ser transformadas.
A erradicação do racismo é uma tarefa que somente pode ser realizada se percebermos que por nosso intermédio Deus está realizando reparação para com toda a criação, todas as coisas e todos os povos.2
A conversão radical que nosso engajamento ecumênico exige está em compreender que como pessoas e criação somos um. Quando entendermos isto e agirmos de acordo, nossa transformação irá em frente e nosso engajamento com a vida como um todo é enriquecido.
COMO UTILIZAR A CARTILHA
A Cartilha trata de muitos assuntos ligados ao racismo. Para facilitar sua utilização, os temas estão separados em seções.
• Seção 1: Reafirma que o racismo é pecaminoso. Procura criar uma percepção pessoal e institucional deste fato, com base na reflexão bíblica e teológica. Esta seção também oferece algumas definições práticas e oportunidades para refletir sobre a experiência do racismo.
• Seção 2: Justiça transformadora, um compromisso radical com a superação do racismo, define conceitos e abordagens essenciais para superar o racismo. Esta é a razão por que esta seção é mais longa. Ela encoraja as igrejas a enfrentarem o problema e se tornarem comunidades de justiça transformadora, além de esboçar passos para se construir tais comunidades. Esta seção também sugere estratégias para as igrejas revisarem sua história e missão.
• Seção 3: Oferece algumas estratégias para ajudar as igrejas a superarem o racismo.
• Seção 4: Destaca possíveis frutos da justiça racial e étnica, apresentando alguns exemplos.
A maioria das seções apresenta referências bíblicas, questões, exemplos, sugestões para trabalho em grupo bem como propostas concretas para maior envolvimento com os problemas. Um glossário e uma seleção de subsídios acompanham esta Cartilha. Outros recursos, destacando aspectos específicos apresentados na Cartilha, estarão disponíveis mais tarde.
Esta Cartilha está voltada para as igrejas, suas comunidades e seus membros. Ela também pode ser utilizada por grupos na sociedade civil que tenham uma ligação específica com igrejas e seu envolvimento no combate ao racismo. Espera-se que as congregações utilizem as diversas seções da Cartilha para a conscientização dos seus membros, de modo que possam identificar aquelas áreas mais relevantes para os mesmos e elaborar estratégias sobre como podem agir para superar o racismo.
As comunidades é que precisam decidir sobre como estudar, refletir e orar sobre os temas da Cartilha.
As igrejas poderiam optar por
- usar a Cartilha na Escola Dominical,
- criar grupos de estudo que se reunam regularmente ao longo de certo tempo,
- organizar retiros, seminários e oficinas,
- criar um processo local, regional ou nacional para toda a denominação, etc.
Entretanto o mais importante é que a caminhada seja:
- coletiva, baseada na comunidade e inclusiva;
- embasada e centrada na participação e nas relações das pessoas;
- projetada de modo a tocar a alma e o espírito das pessoas, seus corações e mentes;
Pelo poder do Espírito Santo, esta é uma caminhada para a transformação das igrejas e para a mudança radical na superação do racismo.
A Cartilha é acompanhada por um formulário para ser preenchido, sendo esta uma das formas com as quais o Conselho Mundial de Igrejas espera ouvir das igrejas e comunidades sobre a caminhada de cada uma delas. Por esta razão é muito importante anotar o trabalho dos grupos, as lembranças das pessoas, as experiências e narrativas sobre eventos.
A Cartilha serve de subsídio para os(as) facilitadores(as) bem como para os participantes. É importante salientar que o(a) facilitador(a) deve estar capacitado para conduzir diversos tipos de encontros e deve saber como facilitar o trabalho de grupo e relações entre raças. Essa pessoa precisa ter bom relacionamento interpessoal, conhecimento de dinâmica de grupo e estar bem consciente de sua própria identidade racial e étnica, sentindo-se à vontade com a mesma.
Algumas sugestões para as tarefas dos(das) facilitadores(as):
- Fazer um planejamento meticuloso para que as questões sejam abordadas da forma mais adequada pelos participantes.
- Criar oportunidades para que comunidades sem diversidade étnica ouçam da experiência que outras pessoas tiveram com o racismo. Elas precisam entender em seus corações que o racismo não é uma opinião inofensiva sobre outras pessoas, mas uma atitude profundamente destrutiva.
- Familiarizar-se antecipadamente com aquele conteúdo da seção ou parte da seção que será discutido, estudado e refletido.
- Desenvolver uma dinâmica de grupo que crie um ambiente em que as pessoas se sintam seguras e à vontade para compartilhar suas experiências, seus sentimentos e suas crenças.
- Estar consciente da necessidade do sigilo. Mais especificamente, os facilitadores deveriam alertar o grupo no sentido de que histórias pessoais contadas no grupo não devem ser contadas a ninguém fora do mesmo sem o consentimento expresso do grupo e dos indivíduos envolvidos.
- Dar bastante exemplos e ilustrações para ajudar os participantes a entender as questões, as tarefas e os desafios.
- Encorajar os participantes a se engajarem autenticamente nas discussões de tarefas.
- Ajudar o grupo a fazer conexões com a realidade local.
- Ajudar a desenvolver novas maneiras ou estratégias para a mudança ou erradicação do racismo.
- Ajudar as pessoas a se engajarem com os problemas.
Portanto, as igrejas são chamadas a refletir sobre o que significa ser igreja, a superar o racismo, a encarar o fato de que está na hora de se fazer justiça e das igrejas fortalecerem seu papel profético.
Em setembro de 2002, o Comitê Central do CMI, como parte da sua contribuição para este constante desafio, afirmou a necessidade de ação para ajudar a formar comunidades verdadeiramente multirraciais e étnicas, que protejam a diversidade, onde diferentes identidades possam interagir e onde os direitos e as obrigações de todos sejam plenamente respeitados em amor e comunhão.
O resultado da revisão será levado em consideração em outros estudos e trabalhos do CMI:
• O estudo sobre "A Natureza e Missão da Igreja", pelo Departamento de Fé e Ordem. (Trata-se de um estudo sobre a igreja, que reflete sobre o que cristãos de diferentes confissões podem dizer em conjunto sobre a natureza e o propósito da igreja. Ele também trata de questões eclesiásticas que separam as igrejas.)
• Preparativos para a Conferência sobre Missão Mundial e Evangelização em 2005, sobre o tema "Vem Santo Espírito, Cura e Reconcilia: Chamados em Cristo para ser Comunidades Conciliadoras e Terapêuticas ";
• A Década para Superar a Violência (2001 – 2010), para reforçar sua relação com o trabalho de superação do racismo.
As reações à revisão serão apresentadas a na nona assembléia do CMI em 2006, em Porto Alegre, Brasil, com as recomendações dirigidas às igrejas-membro.
Barra lateral:
As igrejas são chamadas a se engajar no processo de forma crítica, em oração e como parte de um processo de cura e reconciliação para superar o racismo com base nas comunidades. O Comitê Central do CMI por isso recomendou que:
Seja feita uma revisão da história das relações das igrejas com povos atingidos por sua missão – povos indígenas e aborígines, africanos e afro-descendentes, Dalits, minorias étnicas e outros; e que essa revisão saliente o que a missão das igrejas significou no passado e o que ela deveria significar hoje para a natureza da igreja e na relação com o objetivo de superar o racismo.1
Nota: Dalits é a palavra usada pelas comunidades que não pertencem às castas na Índia. O nome foi dado por seu líder, Dr. B.R. Ambedkar, e se refere à sua condição de desagregação e opressão. Esta comunidade se tornou um símbolo de resistência e luta.
