8 de set. de 2008

Memória do Encontro de Estudo da Cartilha Justiça Transformadora - Setembro 2007

FACULDADES EST

I ENCONTRO DE ESTUDO DA CARTILHA DO CMI – CONTINUIDADE DO III SIMPÓSIO ABRINDO AS PORTAS DAS IGREJAS DE 2006

DATA: 31 /08 e 1º de setembro de 2007
LOCAL: Faculdades EST -São Leopoldo – RS / Brasil
PROMOÇÃO: Grupo Identidade da EST/IECLB, COMIN e CENACORA
APOIO:, Grupo Assessor das Questões Etnia/IECLB, CEBI, Wartburg College (EUA) e Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL).


Profª. Ms. Selenir Corrêa Gonçalves Kronbauer[1]
(organizadora)P. Dr. Joe Marçal Gonçalves dos Santos[2]
(colaborador)



1. Situando a proposta do encontro:
A discussão iniciada no III Simpósio Abrindo as portas das igrejas, nos dias 17 e 18 de novembro de 2006, fomentou uma proposta de continuidade a partir do painel JUSTIÇA TRANSFORMADORA: SER IGREJA E SUPERAR O RACISMO. O painel – cujo título faz direta referência ao documento homônimo elaborado, em 2004, pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) – tinha em vista promover o documento e discutir formas de sua aplicação como referência em grupos e comunidades cristãs.
A continuidade dessa reflexão se propôs ambos os objetivos: promover a multiplicação da cartilha e encontrar estratégias de divulgação da mesma como referência para a reflexão e iniciativas nas comunidades cristãs e grupos vinculados. O desafio era, então, levar a idéia para as igrejas e nos reunirmos novamente para uma leitura, discussão e estudo em conjunto.
Cada Igreja e/ou comunidade recebeu o texto com o conteúdo da cartilha para uma leitura, análise, estudo e discussão junto a sua comunidade. São elas: Sínodos/IECLB, APNs/CNBB; CEBI, Igreja Batista/POA, Igreja Metodista/POA, Centro Universitário IPA Metodista,CAPA, Comunidades Indígenas: Kaingangs e Guaranis, outras Igrejas e Comunidades contatadas pela CENACORA. Os participantes do encontro foram desafiados a trazerem o resultado dessas discussões em suas comunidades para, através de um encontro de estudos, partilharmos, elaborarmos e encaminharmos um texto para um encontro nacional previsto para 2008.
O encontro de estudos aconteceu nos dias 31 de agosto e 1º de setembro de 2007, no auditório da Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Iniciamos com um painel sobre Diálogo Inter-religioso e Ecumenismo, com Prof. Dr. Rudolf Von Sinner, um panorama geral sobre o CMI com Dr. Marcelo Schneider seguido de trabalhos em grupos para análise e discussão da temática, conforme segue.

2. Relatório das atividades:

2.1. Diálogo inter-religioso: resumo da palestra de Prof. Dr. Rudolf von Sinner[3]

A Igreja é, por definição, universal, católica, ecumênica – oikoumene significa “a [terra] habitada”. A fé ultrapassa fronteiras de etnia, gênero, línguas, culturas. No entanto, o atual quadro religioso no Brasil não é testemunho de ecumenismo, mas de separação, competição e até agressão, entende o professor da Faculdades EST Dr. Rudolf von Sinner. Ele deu palestra sobre Diálogo Inter-religioso na manhã de abertura do Encontro de Estudos a partir da Cartilha do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) “Justiça Transformadora: Ser Igreja e superar o racismo”. O encontro realizou-se na Faculdades EST nos dias 31 de agosto e 1º de setembro.

O palestrante mencionou várias formas de não-dialogar, entre as quais estão:
Diferentes religiões podem conviver numa só pessoa: diálogo “intra” religioso;
Pessoas (e religiões) podem rejeitar por completo qualquer outra religião: não há diálogo;
Pessoas podem procurar o diálogo em respeito à própria religião e à do outro; “é tudo o mesmo deus” – parece simpática a postura, mas será que respeita a religião?, questiona Von Sinner;
Pessoas (e religiões) podem rejeitar por completo qualquer outra religião: não há diálogo; o desconhecido gera medo; o discurso competitivo de algumas igrejas (ironicamente as de maior presença de afro-descendentes) despreza, rejeita e até combate outras religiões e desestimula o diálogo.

Por outro lado, existem, basicamente, três (quatro) posicionamentos possíveis:
Exclusivismo: somente minha religião é verdadeira – conforme Atos 4,12;
Inclusivismo: a minha religião é a mais verdadeira, mas há elementos da verdade em outras religiões – Atos 17,23; Atos 14,15-17;
Pluralismo: todas as religiões são verdadeiras – conforme Jonas 1,4-6;
Exotismo: a outra religião é melhor do que a minha.

O diálogo inter-religioso, assim o vê Rudolf von Sinner, é um tipo de interação entre pessoas pertencentes a diferentes religiões que acontece nos mais diversos níveis, nem sempre de forma explícita:
- diálogo da vida: no dia a dia
- diálogo espiritual
- diálogo político (Direitos Humanos)

O diálogo pressupõe abertura, disposição, respeito (VER, OLHAR); interesse pelo outro; querer aprender (OUVIR); uma posição própria a compartilhar (FALAR); confiança em Deus, que é sempre maior do que Dele percebemos.

Para von Sinner, diálogo inter-religioso pressupõe convivência na base da confiança, que é mais do que coexistência – é uma comunhão de aprendizagem, de cooperação, de celebração (Theo Sundermeier). “Não há convivência sem confiança, e a confiança cresce no encontro e no diálogo”, conclui o professor da EST.

2.2. O CMI e a proposta da Cartilha: Justiça restauradora dá prioridade à reconciliação e à cura da comunidade: resumo da palestra de Dr. Marcelo Schneider[4]

Baseado na compreensão do termo “ubuntu” (ser alguém em comunidade), o conceito de justiça restauradora afirma o papel vital da comunidade. A justiça restauradora dá prioridade à reconciliação e à cura da comunidade em comparação ao entendimento de justiça baseado em retribuição, que requer a punição dos culpados a qualquer custo. Justiça restauradora, porém, também requer compensação e restituição de perdas e danos às vítimas por parte dos perpetradores, expôs o teólogo Dr. Marcelo Schneider em sua palestra no Encontro de Estudos a partir da Cartilha “Justiça Transformadora: ser Igreja e superar o racismo”.

Marcelo Schneider é assessor do moderador do CMI, pastor presidente da IECLB, Dr. Walter Altmann, e trouxe para o encontro na EST aspectos do trabalho do CMI após sua 9ª Assembléia, realizada em Porto Alegre em fevereiro de 2006.

O encontro realizado na Faculdades EST em 31 de agosto e 1º de setembro, teve como base a cartilha elaborada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em 2004. Através desse documento, as igrejas são chamadas a fazer avançar a causa da justiça no tocante a questões raciais e étnicas.

Após esta Assembléia, o CMI viu-se diante de um novo século, de um novo milênio, agregou Marcelo Schneider. Os delegados e participantes trouxeram tanto preocupações quanto manifestações de esperança. Diante de tanta diversidade, a primeira afirmação seria de que o movimento ecumênico está vivo. Mas para onde caminha? E com que forças?

O trabalho de sistematização das deliberações da Assembléia e seus diversos comitês, segundo Marcelo, resultou numa reestruturação substancial do Conselho, que se reflete numa atenção especial ao planejamento, monitoramento e avaliação dos passos dados. Era preciso apontar prioridades, afinar tais prioridades numa dinâmica de interação e produtividade.

Os seis novos programas trazem em seu bojo quase a totalidade das “velhas” agendas do movimento ecumênico, mas com uma tônica e um método diferentes:

1 – O CMI e o movimento ecumênico no século XXI
2 – Unidade, Missão, Evangelismo e Espiritualidade
3 – Testemunho público: abordando as questões de poder e afirmando a paz
4 – Justiça, Diaconia e Responsabilidade pela Criação
5 – Formação e Educação Ecumênicas
6 – Cooperação e Diálogo Inter-religiosos

“Igrejas Superando o Racismo” está inserido, hoje, na unidade 2. Mais especificamente no subprograma “Rumo a Comunidades Justas e Inclusivas”, ao lado de questões e temas como:

solidariedade com povos indígenas
solidariedade com os dalits por justiça e dignidade (na Índia há 160 milhões de dalits, considerados “intocáveis” e que sofrem discriminação por conta da sua casta, sendo considerados quase subumanos, sujeitos aos trabalhos mais degradantes, seus direitos são sistematicamente submetidos a violações)
Rede de Defesa da Causa das Pessoas Portadoras de Deficiência (EDAN)

Tendo o indiano Deenabandu Manchala como responsável, estes programas são executados tendo uma matriz para entender a exclusão, uma matriz para apresentar abordagens acerca da inclusão e uma matriz para um futuro que seja fruto da esperança e das comunidades inclusivas, explica Schneider.

A pastora Ms. Iára Müller, da Pastoral da EST (portadora de deficiência após paralisia infantil), deu depoimento sobre sua participação na Conferência Comunidades Justas e Inclusivas, realizada em La Paz, Bolívia, em fim de maio de 2007. Conforme Iára, no entendimento do CMI, lá estiveram reunidas representantes dos grupos mais oprimidos da humanidade atualmente: pessoas com deficiência, indígenas, negros e dalits.

Segundo Iára Müller, encontro de La Paz levou os participantes a perceber que não é possível mudar as diferenças que há entre eles, mas que são importantes para a humanidade. “Fizemos um documento baseado nessas diferenças, sem tentar disfarçá-las. Pelo contrário, valorizá-las como parte integrante da obra de Deus”, acrescenta a pastora. Nesse documento, o grupo reunido em La Paz também denunciou a anatomia da exclusão, que faz tantas vítimas. “Descobrimos que somente histórias de vida, de sofrimentos e de exclusão podem fazer os outros compreenderem a partir do coração e mudarem sua atitude. Por isso, o documento é recheado de histórias verdadeiras de exclusão”.

As palestras e os trabalhos em grupos deram subsídios para a elaboração de um documento adicional à Cartilha de 2004 do CMI, a ser publicado em breve.


3. TRABALHOS EM GRUPOS

Após as contribuições dos assessores Dr Rudolf Von Sinner e Dr. Marcelo Schneider, os participantes do encontro reuniram-se em três (3) grupos, retomaram as questões apresentadas nas palestras associadas a leitura do documento/Cartilha do CMI sobre “Justiça Transformadora”. Discutiram e avaliaram a atual situação da comunidade negra e indígena na sociedade brasileira.

3.1. Propostas e encaminhamentos para continuidade do trabalho:

Os grupos de trabalhos destacaram os seguintes itens a serem trabalhados com o apoio do CMI :

Grupo 1
Ø As comunidades religiosas poderiam aguçar os trabalhos sociais a exemplo do filme da “ONU” organizado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos e trabalhado pelo Rev. Sant’Anna antes dos trabalhos em pequenos grupos.
Ø Sugerir o filme nas comunidades como forma de trabalhar melhor a questão do racismo. Solicitar mais cópias desse filme para repassar aos grupos e comunidades. Trabalhando assim demonstrará diálogo sem hipocrisia e estimulará as comunidades e a sociedade em geral a sensibilizar-se ao racismo;
Ø Fazer visitas às pessoas indígenas para trazer juntos a realidade das comunidades cristãs.
Ø Ter um olhar mais sensível às mulheres indígenas, buscando maior inclusão e espaços para as mesmas;
Ø Não há muita oportunidade para as mulheres indígenas em grupos de discussões formais. Deve ser trabalhada essa questão para serem discutidas em comunidades cristãs e junto ao CMI.
Ø Fazer uma documento para os indígenas (cartilha a partir de idéias vindas da s comunidades indígenas);
Ø Centralizar as reuniões sobre a Cartilha do CMI, onde a presença das igrejas da Grande Porto Alegre tenha participação mais efetiva e representatividade.
Ø Os encontros devem viabilizar o acesso fácil para as comunidades e lideranças;
Ø A Justiça Transformadora ajuda a combater o racismo na sociedade e abre a porta para o diálogo.

Comentários a partir das discussões na plenária dia 1º de setembro:
Ø Organizar encontro em Pelotas e outros lugares junto às comunidades quilombolas;
Ø Pensar no negro em vários lugares: onde está o negro sem terra, o negro empresário, o negro bem sucedido e o negro marginalizado?
Ø Refletir sobre o lugar do indígena e dar visibilidade na sociedade brasileira;
Ø É preciso transformar as estruturas para falar de inclusão. Se não houver transformação das organizações e da estrutura política, não será possível promover a inclusão de forma efetiva.


Grupo 2
1- O que é racismo ? de onde vêm?
Ø O racismo é um pecado original ou estrutural, independente da situação individual? (dimensão cultural).
Ø É preciso conscientização que existe o racismo inconsciente, para após isso, buscar superá-lo (nas dimensões individuais e estruturais);
Ø O primeiro passo para a mudança é a percepção de que é um pecado e que “eu sou racista”, ou seja, a percepção que é o indivíduo que perpetua o racismo.

2- Para mudar, o que fazer?
Ø Conscientização do pecado do racismo;
Ø Responsabilidade dessa etapa recai principalmente sobre a família, a igreja e a escola, espaços educativos por excelência;
Ø A dimensão estrutural do racismo e descriminação (nas instituições, órgãos de governo, etc), só será superada com a organização de um amplo movimento, que inclua pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência e brancas. Esse movimento precisa cobrar justiça reparativa com símbolos de arrependimento (ações afirmativas, memorial, museus).

3- Visualização:
Ø Após a reparação dos danos causados e com a diminuição da distância entre brancos, negros e indígenas, haverá possibilidade de um convívio de reconhecimento mútuo. A justiça transformadora é obra de Deus, aguardada em fé e amor.

Comentários a partir das discussões
Sobre a questão do pecado original e do pecado estrutural em relação ao racismo:
Ø Buscar a justiça reparadora a partir de várias teologias;
Ø A relação só se reconstituirá a partir da reparação através da busca de resgate histórico (memória, língua e história);
Ø Cada pessoa tem força transformadora e tem o poder de superar a questão do racismo. Alguns estudantes estrangeiros, esperavam que no Brasil o racismo não fosse tão forte, mas está centrado na questão do poder que está na mão dos brancos. Segundo eles, no Haiti o poder político está na mão dos negros;
Ø Precisamos a força da informação;
Ø Ainda poderá levar mais 50 anos para que haja mudanças significativas sobre a questão racial no mundo.


Grupo 3
Apresentação da Cartilha:
Ø Relação das pessoas: desafios à igreja a superar o racismo;
Ø A igreja precisa propiciar meios de reparações para superar o racismo. Sugestão de criação de uma biblioteca e de um espaço para reunir a memória da história do povo negro;
Ø Resgate da história dos negros “anônimos”;
Ø Implementação das discussões nas escolas e universidades além do proposto pelo MEC. Nessa perspectiva poderá se resgatar a história local, valorizando a diversidade;
Ø Dificuldades de assumir-se como negros
Ø A influência das instituições de ensino e das igrejas na formação da identidade é algo muito forte; utilizar essas vias para propagar nossa história torna-se necessário;
Ø É preciso unir forças com outras organizações sociais;
Ø Participação das crianças indígenas com as crianças das comunidades através da convivência nas escolas e no resgate da história;
Ø Trabalhar com as crianças será fundamental, pois, se este trabalho fosse realizado ha alguns anos atrás, talvez, não teríamos esta realidade em que os próprios negros negam suas origens.

Comentários a partir das discussões
Negros anônimos:
Ø Resgate histórico a partir da realidade local;
Ø Discussão nos cursos de Teologia e outros cursos da graduação, os negros assumirem-se como negros e atuarem na causa;
Ø Sensibilizar a base para mudar a mentalidade das pessoas em relação aos negros;
Ø A sociedade classifica as pessoas, a classificação manipula;


A partir das idéias dos 3 grupos organizadas neste encontro da Região Sul do país, pretendemos organizar um evento nacional, em 2008, que possibilite a discussão com as demais organizações das diferentes regiões do Brasil e da América Latina, que resulte na elaboração de uma proposta a ser apresentada ao CMI.


4. ENCAMINHAMENTO DE SUGESTÕES

4.1. Material enviado pelo CEBI, sugestão de Estudos Bíblicos
Ildo Bohn Gass

Contribuições do CEBI para o I Encontro sobre a Cartilha “Justiça Transformadora: ser Igreja e superar o racismo” – CMI

Ildo Bohn Gass,[5] ao analisar a cartilha destaca que não há intenção de propor mudanças mais profundas, porém, envia algumas reflexões e sugestões que considera importante.

Segundo Ildo, de um modo geral, gostou da cartilha. Entende ser uma importante contribuição do CMI para o processo de superação do racismo, realidade perversa que, além de excluir milhões de pessoas, legitima o poder econômico nas mãos de poucos. Como sugestões e contribuições, envia alguns pontos destacados a partir da leitura do documento. São elas:

Ø A linguagem de gênero poderá ser mais inclusiva;
Ø Caso seja decidido manter mais ou menos este texto, sugere que se deve buscar sinônimos de uso mais popular para palavras como: perpetrador, empírico, constructo, estereótipo, paradigma, holístico, aborígine, genocídio, xenofobia, etc., bem como explicar o que são os Dalits na Índia.
Ø Na página 12, tem um item "Páginas principais", seguido por "OBJETIVO" e pela enumeração de três objetivos. Depois, no primeiro ponto se afirma que todas as pessoas somos de uma raça só, a raça humana. Concordo plenamente com isso. No entanto, ao mesmo tempo em que a cartilha entende assim a raça humana, por que insiste em usar os termos racismo, raça e racial? Não seria melhor substituí-las por "discriminação étnica, cultural, entre povos e nações, por exemplo? Pode ser uma opção política, como escreve Peter Nash, até porque no glossário desta cartilha se define racismo como uma ideologia que divide os seres humanos em etnias superiores e outras inferiores.
Ø "Referências bíblicas".
ü Na versão eletrônica que me enviaste por @, é na página 11 (SEÇÃO 1 - O PECADO DO RACISMO). Nas citações Gl 3,28 e 1Cor 12,12-13, proponho acrescentar Rm 10,12 e Cl 3,11. É que penso ser importante perceber que, no Evangelho de Jesus Cristo segundo Paulo, a superação das relações discriminatórias no que diz respeito às diferentes etnias é um tema central. Aqui, também se poderia incluir a afirmação “Deus não faz acepção de pessoas” que está em Gl 2,6 e também se encontra em At 10,34 e Dt 10,17.
ü A esse conjunto de textos, se poderia acrescentar outros, como: Gn 2,10-14 (a África faz parte do Paraíso); Sf 1,1 (Sofonias é um profeta etíope); Mt 2,1-12 (segundo a tradição, um dos magos que visitam Jesus em Belém era negro); At 8,26ss (o eunuco etíope leva o Evangelho para a África); Ap 5,9-10; 7,9 (universalidade dos filhos e filhas de Deus).

Ø Declaração das Igrejas
ü Página 14 (AS IGREJAS TÊM DECLARADO QUE O RACISMO É PECADO). No primeiro dos 3 pontos aí relacionados, penso ser interessante acrescentar a citação (Gn 1,26-27) após a frase: "Ele nega a fonte por excelência da humanidade - a imagem de Deus nos seres humanos".
ü No rodapé da página 20, se poderia citar Jo 8,32 junto com Ef 4,14-15.


Ø Proposta:
ü Proponho que se amplie o item acima sobre o uso dos termos “raça” ou “etnia”, afirmando, por exemplo, que todos os povos são afro-descendentes, têm sua origem na África. (E nisso a maioria dos cientistas também está de acordo. E, provavelmente, os que não estão de acordo é porque são racistas.) E as diferenças culturais e físicas, como a cor da pele, os cabelos, as formas do nariz, a cor dos olhos, etc., não são "evoluções para grupos étnicos superiores", mas são "adaptações às diferentes situações climáticas" (pouco ou muito sol, frio ou calor, mais ou menos umidade do ar, etc.). Ter presente que todas as pessoas somos afro-descendentes nos ajuda a tomarmos consciência da radical igualdade na dignidade de todas as pessoas para além das riquezas nas suas diferenças.



4.2. De: Secretaria Permanente do Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL)
P. Dr. Joe Marçal Gonçalves dos Santos

Para: I Encontro sobre a Cartilha “Justiça Transformadora: ser Igreja e superar o racismo” – CMI, 2007.

Assunto: Registro de participação do FMTL


Atendendo o convite feito pela coordenação do encontro, por meio da Profa. Ms. Selenir C. Gonçalves Kronbauer, a Secretaria Permanente do FMTL se fez presente no evento na programação de seu primeiro dia (31/08), representada por P. Dr. Joe Marçal G. dos Santos, assistente executivo desta secretaria, tendo a honra de compor a mesa de autoridades presentes e, em oportunidade, apresentou as seguintes intenções visando uma cooperação mútua.

1) O FMTL, representado por sua secretaria permanente, sediada na PUCRS, em Porto Alegre, se alegra em participar deste encontro, tendo em vista a oportunidade de cooperação frente a interesses comuns que nele convergem e se afinam enquanto um debate teológico e ético com a sociedade. O objetivo do FMTL é fomentar e construir um espaço de discussão e intercâmbio de experiências entre comunidades religiosas, movimentos sociais e teólogos/as profissionais visando contribuir com a formação de uma rede de teologias contextuais em perspectiva de libertação. Temos a convicção que tal espaço acontece mediante um processo, ou uma caminhada que gere conexões entre organismos e pessoas engajadas nas causas e nas atividades que concretamente promovem “libertação” em diferentes meios e situações.

2) Esse encontro reúne grupos/pessoas de diferentes Igrejas e que convergem em experiências e reflexões comuns em torno das relações inter-étnicas e inter-culturais, envolvendo em especial afrodescententes e indígenas. Concretamente, se trata de um diálogo ecumênico e inter-religioso cuja agenda é ética e que, no âmbito da teologia, aponta para a necessidade de desenvolvermos uma reflexão e discurso teológico numa interface muito prática com a sociedade. A demanda é concreta tanto quanto são concretas as vivências de sofrer agressões e diferentes formas de violência e preconceito racial; amadurece e frutifica, contudo, como processo educativo que deseja mobilizar, transformar e reinventar, em última análise, o espaço público. Desse modo, estamos aqui no terreno de uma “teologia pública”.

3) A terceira edição do FMTL será em janeiro de 2009, em Belém do Pará, seguindo sua metodologia de acompanhar o processo inaugurado com os FSM’s. O primeiro FMTL aconteceu em 2005, em Porto Alegre, na semana que antecedeu o VI FSM também realizado em Porto Alegre. Na ocasião, 180 participantes debateram sobre “Uma teologia para outro mundo possível” e, ao final, decidiram em ampla unanimidade que o projeto deveria ter continuidade. Assim, instalada uma secretaria permanente, sob a coordenação de Fr. Luiz Carlos Susin, logo em seguida se deu início aos preparativos do segundo FMTL. Este, sob o tema “Espiritualidade para outro mundo possível”, reuniu em torno de 300 pessoas em janeiro deste ano, em Nairobi/Quênia, também na semana que antecedeu o VII FSM.

4) Por sua vez, o III FMTL 2009, na região amazônica, terá por motivação uma “teologia da Terra”, cujo mote “para outro mundo possível” convidará a uma reflexão sobre as condições da vida no planeta e, certamente, sobre os imperativos éticos de justiça e dignidade que se tornam prementes diante dos limites e crises que a sociedade tecnológica atual vive e retroalimenta. O eixo-temático “Relações inter-étnicas, inter-culturais e teologia” constituirá o espaço de debate e intercâmbio para as questões relativas a violência racial e superação de racismo.

5) Assim, dirigimos a vocês um convite que é também uma proposta concreta para o encaminhamento das questões que serão tratadas nos grupos de trabalho. Isto é, pensar sua agenda de modo que a experiência desenvolvida em sua comunidade, cidade e contexto possa também tomar parte no projeto deste Fórum em 2009. De modo prático, temos seguido a metodologia de atividades auto-gestionadas: isto é, participantes poderão se organizar em delegações, seja de uma entidade ou em parceria, e propor à organização do FMTL sua atividade, que será realizada no espaço temático permanente nos dias do encontro. Isso poderá ser feito na inscrição no evento; o mais importante agora, contudo, é pensar e planejar desde já essa agenda de longo-prazo e o orçamento implicado nisso, tendo em vista também a participação no próprio FSM – onde a mesma atividade poderá também ser proposta.

6) Finalmente, nossa motivação: pensar uma teologia pública é uma maneira de encarnar a teologia e recuperar um sentido de política genuinamente civil e laica. Se a metáfora de “espaço” é adequada para isso, poderíamos dizer que também somos chamados e chamadas a ocupar esse espaço, e tal ocupação não acontece de maneira autoritária, mas através da possibilidade de diálogo. O FMTL quer contribuir nisso e mobilizar a uma teologia cuja linguagem e temas esteja ao alcance da sociedade e lhe desperte o sentido de relevância frente a uma compreensão do planeta, da vida e da condição humana fundada na justiça, na dignidade e na vulnerabilidade que nos constitui.



7) Instituições organizadoras do FMTL

• Associação de Teólogos (as) do Terceiro Mundo – ASETT/EATWOT
• Amerindia
• Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – SOTER
• Centre de théologie et d’éthique contextuelles québécoises - CETECQ
• Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização e Educação – CESEP
• Centro Ecumênico de Evangelização, Capacitação Assessoria – CECA
• Comunidad de Educación Teológica Ecuménica Latinoamericana y Caribeña – CETELA
• Faculdades EST
• Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS
• Instituto Humanitas – Unisinos – IHU

8) Secretaria Permanente:
• Luiz Carlos Susin – secretario executivo
• Joe Marçal G. dos Santos – assessor
• Contato:
Fone/fax: +55 (51) 3320-3940E-mail: permanentsecretariat@wftl.orgWeb: www.wftl.org

[1]Coordenadora do Grupo Identidade da Faculdades EST/IECLB
[2] Assessor da Secretaria Permanente do Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL)
[3] Texto elaborado por Ingelore S. Koch, jornalista e assessora de comunicação da Faculdades EST.
[4] Texto elaborado por Ingelore S. Koch, jornalista e assessora de comunicação da Faculdades EST.
[5] Representante do CEBI no I Encontro sobre a “Cartilha Justiça Transformadora” - CMI